terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Pierrot, Le fou... Pra recomeçar....


Entre um relacionamento e outro, nada melhor que uma resenha de filme, já que livros eu tenho lido muito pouco! Ando realmente sem saco de escrever, ou melhor, andava, estou tentando voltar a ter saco! Pra tirar a poeira e ressussitar meu blog, recomeço com a resenha de um filme que gosto muito, do meu estimado Godard: Pierrot, Le fou, depois de assisti-lo trocentas vezes! A resenha foi escrita pra uma aula, do início do ano passado, mas acho que vale, não?
Chega de conversa e vamos ao que interessa!
Pierrot, le fou, de Jean-Luc Godard (França, 1965)
É difícil falar de um ponto interessante no filme do Godard, quando quase tudo nos impressiona. Pierrot, Le fou é um filme de narrativa fragmentada, onde tempo e imagem estão dissociados um do outro, possuem autonomia. As falas (sons), as imagens e o tempo em si estão completamente livres. A estória não tem um fio condutor, não segue uma linearidade, sempre interrompida por cortes irracionais, demarcando uma divisão não-cronológica dos capítulos que dividem o filme (primeiro capítulo, segundo, terceiro, oitavo, oitavo, próximo, próximo...), não só a imagem, mas também o som sofre cortes abruptos, como na cena do roubo do carro.
O filme é permeado por diálogos “frouxos”, que em algumas vezes não querem dizer “nada”, e em outras querem dizer “tudo”. Soam como poesia, como música, reflexões existencialistas, desabafo com o próprio espectador (remetendo-nos ao teatro de atrações) sem qualquer receio de expor o anti-realismo do filme, que ora tenta nos confundir com o real quando Marianne Renoir (Anna Karina) diz “Tem que parecer real. Isso não é um filme!” contrastado com a falsidade aberrante da cena em questão, ora surpreende-nos com um diálogo diretamente direcionado a nós quando Ferdinand (Jean-Paul Belmondo) exclama “Tudo que ela pensa é diversão!”, e Marianne o interpela “Com quem está falando? “Com a platéia.”, seguindo-se um “ah” de Marianne, como se a situação fosse muito óbvia. O real e o imaginário estão separados por uma linha tênue.
Godard utiliza colagem em seu filme, as cenas são interrompidas por letreiros (vie, riviera,cinema; e por que não movie?), histórias em quadrinho, figuras, fotografias e obras de arte (como os quadros de Picasso e Renoir). Pierrot é, sem dúvida, um fissurado pela arte, principalmente pela literatura. Há, no entanto, uma nova concepção de cinema, da decupagem, da mise-en-scène, dos falsos raccords, e no uso das cores, especialmente azul, verde, vermelho e amarelo. A câmera possui determinada fixidez, em muitos momentos ela escapa daquele que fala (autonomia do som em relação ao movimento/imagem), muitas vezes também retratando espaços vazios.
Em Godard, tudo é possível, inesperado. Os personagens podem ser o que quiserem, pois se trata de um filme: “vida real é outra coisa”. Há um afastamento entre os personagens e os espectadores; aqueles são pouco afetados, até mesmo pelo que lhes acontece e não nos afeta (ou pouco nos afeta, ao menos diretamente). Apresentam-se desprovidos de caráter, mas nem por isso deixam de nos conquistar, e acredito que justamente por estar claro que é só uma representação, que se trata de cinema, que é vermelho e não sangue, segundo a fórmula do próprio Godard. Pierrot, Le fou é um filme puramente experimental, alternativo e peculiar, com um desfecho, no mínimo, imprevisível.

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